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O Silêncio Antes das Seis

Heloise, 38 anos — Ilha da Entrega


Heloise em sua escada silenciosa.
Heloise em sua escada silenciosa.

Começo pelo cheiro. Sempre pelo cheiro. Um perfume de madeira antiga misturado ao pó dourado que repousa nos degraus da escada. A luz do fim da tarde bate ali como se quisesse revelar algo, mas a casa não entrega seus segredos tão facilmente. Eu também não. Caminho devagar, sentindo o calor subir pelos tornozelos, como se a própria noite me chamasse pelo nome. Às vezes penso que a casa respira — um sopro lento, profundo, que se mistura ao meu. Talvez seja só a lembrança do que fui, ou do que ainda sou, escondida entre paredes que aprenderam a guardar histórias demais.

O silêncio antes das seis sempre me atravessa. É um silêncio cheio, grávido, prestes a romper. Daqui a pouco virão as vozes, os risos, os passos apressados das moças ajeitando vestidos, dos homens ajeitando máscaras. Mas agora… agora é só o eco do meu próprio coração batendo contra o peito, como se pedisse para ser ouvido depois de tantos anos abafado. Será que um coração aprende a falar de novo?

A escada dourada nunca contou o que viu. Nem eu. Cresci entre portas batendo e copos quebrando, entre o cheiro ácido do álcool e o silêncio resignado de minha mãe. Eu me escondia em um quartinho estreito, puxando meus irmãos para dentro, tentando abafar o mundo lá fora. Às vezes ainda sinto o tremor nas mãos quando lembro. Às vezes ainda escuto a voz dele, pesada, arrastada, como se pudesse atravessar décadas e me encontrar aqui.

Casei cedo demais. Dezesseis? Dezessete? Não sei. A memória faz curvas, tropeça, se esconde. Ele era mais velho, muito mais velho. Tinha um bigode espesso, uma barriga generosa e uma conta bancária que parecia infinita. Me tratava bem, dizem. Talvez fosse amor, talvez fosse idolatria, talvez fosse só mais uma forma de me possuir. Lembro da promessa que fiz — para sempre dele, mesmo depois da morte. Eu disse sim. Eu sempre dizia sim.

Quando ele partiu, a casa ficou grande demais. O silêncio virou um animal feroz, rondando cada cômodo. Eu bebia para espantar o vazio, mas o vazio bebia comigo. Até que um dia, sem aviso, a ideia surgiu: transformar o sobrado em um lugar onde a noite pudesse dançar. Um cabaré, diziam. Um bordel de luxo, cochichavam. Para mim, era só uma forma de sobreviver. Eu conhecia as pessoas certas — ou erradas, depende do ponto de vista — e conhecia moças que buscavam o mesmo que eu: um lugar para existir, mesmo que fosse entre sombras e risos ensaiados.

As noites se tornaram longas, cheias de música, de taças tilintando, de acordos sussurrados entre homens importantes. Eu observava tudo do alto da escada, como uma guardiã silenciosa. Às vezes me sentia poderosa. Às vezes me sentia vazia. Uma vez, apenas uma, deixei o coração escapar. Ele veio como um sopro quente, como vento de verão. Me apaixonei. Tive um filho. E o perdi. Tiraram-no de mim como se arrancassem um pedaço do meu próprio corpo. Disseram que eu não tinha “condições”. Como se amor fosse condição. Como se dor não fosse suficiente.

Passei anos presa nessa trama, repetindo passos, repetindo escolhas, repetindo silêncios. Até que um dia — não sei se foi sonho, delírio ou milagre — senti uma presença leve, clara, amorosa. Um anjo, talvez. Ou talvez fosse só a parte de mim que eu havia enterrado. Ela me tocou o ombro e disse: volta. Volta para a menina que tremia no quartinho. Volta para a jovem que prometeu o que não entendia. Volta para a mulher que buscou no brilho da noite o amor que nunca recebeu.

E eu voltei. Devagar. Com medo. Com ternura. Acolhi cada pedaço meu como quem recolhe conchas na beira do mar. Descobri que havia abrigo dentro de mim. Descobri que havia calor. Descobri que, mesmo depois de tudo, ainda havia amor.

Hoje, quando desço a escada dourada, sinto que ela finalmente me reconhece. A casa respira comigo. E, pela primeira vez, não sinto que pertenço à noite. Sinto que pertenço a mim.


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Texto criado por Silvia Rocha para a seção Personalidades, do Espaço Vida Integral, inspirada em alguém que ela acolheu.


Personalidades é um espaço dedicado a dar voz a pessoas reais — ou evocadas do coração — que compartilham vivências, feridas e descobertas. Cada história se abre como uma janela para o universo interno, concreto ou simbólico, de quem atravessa emoções profundamente humanas. Psicologia e narrativa se entrelaçam, revelando que, embora singulares, todas as trajetórias brotam da mesma matéria sensível: lembranças que pedem acolhimento. Nomes, idades e lugares são ficcionais, mas as experiências reverberam verdades — fragmentos de vida que tocam, movem e transformam.

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