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Verde por Fora, Vermelho por Dentro

Atualizado: 29 de jan.

Aurora, 50 anos — Ilha da Diferença


Aurora lê O Patinho Feio sentada na goiabeira, entre galhos que a acolhem. A casa terrosa observa ao fundo, o sombreiro protege o jardim, as margaridas escutam. Naquele silêncio, todos entendem sua diferença — antes mesmo dela saber nomeá-la.
Aurora lê O Patinho Feio sentada na goiabeira, entre galhos que a acolhem. A casa terrosa observa ao fundo, o sombreiro protege o jardim, as margaridas escutam. Naquele silêncio, todos entendem sua diferença — antes mesmo dela saber nomeá-la.

Na primeira vez que eu li O Patinho Feio, devia ter uns sete anos. Não lembro da roupa, nem do lugar exato. Mas vamos fingir que foi na goiabeira da minha avó Alice. É lá que minha memória insiste em me levar. A goiabeira era abrigo, torre, esconderijo. Eu subia com a leveza de quem foge. O cheiro das goiabas verdolengas — verdes por fora, vermelhas e suculentas por dentro — ainda me invade quando fecho os olhos. Era um cheiro que misturava fruta, terra e silêncio. E amor.

Minha avó morava na roça. A casa dela era de madeira, com duas águas, pintada num tom que parecia laranja cor de terra. Telhas de barro cobriam o telhado, e a varanda tinha piso avermelhado, como se guardasse o calor dos dias. O jardim era grande — pelo menos para o meu tamanho — e a grama verde fazia cócegas nos meus pés. Na frente, um sombreiro, aquela amendoeira que desenhava sombras largas no chão. À direita, o grande pé de goiabeira. E à esquerda, uma pequena plantação de grandes margaridas. Minha avó devia me amar muito, pois deixava eu desfolhar as pobrezinhas em “mau me quer, bem me quer”, sem nunca me repreender.

Eu era menina da cidade. Visitava nos fins de semana, nas férias, ou quando a maternidade pesava demais para minha mãe solo. Ali, eu era outra. Ou talvez, ali, eu era mais eu.

Chorei copiosamente ao terminar o conto. Não sei se foi pela história em si ou porque, de algum modo, eu já me sentia diferente. Como se houvesse algo em mim que não encaixava. Um bico torto, uma pena fora do lugar.

Hoje, aos cinquenta, ainda me sinto. Diferente.

A diferença não dói mais como antes. Ela pulsa. Ela canta. Às vezes, ela se recolhe. Mas nunca desaparece.

Tenho pensado muito na goiabeira. No modo como ela me sustentava sem exigir nada. No modo como eu me encaixava entre seus galhos, como se fosse feita para mim.

Talvez eu seja feita para lugares assim — que não pedem explicações.

Talvez o patinho feio não tenha chorado por ser rejeitado. Talvez ele tenha chorado ao se reconhecer.

E eu? Ainda choro, às vezes. Por gratidão, por saudade, por tudo que não sei nomear.


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Texto criado por Silvia Rocha para a seção Diário Coletivo, do Espaço Vida Integral, inspirada em suas memórias de infância.


Diário Coletivo reúne relatos que nascem da percepção da autora sobre o que ela vê e sente. Cada história funciona como uma fresta para mundos internos — reais ou simbólicos — onde personagens atravessam emoções humanas comuns. Psicologia e narrativa se encontram para mostrar que, apesar das diferenças, todas as vidas partilham a mesma matéria sensível: experiências que merecem ser ouvidas. Nomes, idades e locais são inteiramente fictícios.

 

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