Verde por Fora, Vermelho por Dentro
- Silvia Rocha

- 22 de out. de 2025
- 2 min de leitura
Aurora, 50 anos — Ilha da Diferença

Na primeira vez que eu li O Patinho Feio, devia ter uns sete anos. Não lembro da roupa, nem do lugar exato. Mas vamos fingir que foi na goiabeira da minha avó Alice. É lá que minha memória insiste em me levar. A goiabeira era abrigo, torre, esconderijo. Eu subia com a leveza de quem foge. O cheiro das goiabas verdolengas — verdes por fora, vermelhas e suculentas por dentro — ainda me invade quando fecho os olhos. Era um cheiro que misturava fruta, terra e silêncio. E amor.
Minha avó morava na roça. A casa dela era de madeira, com duas águas, pintada num tom que parecia laranja cor de terra. Telhas de barro cobriam o telhado, e a varanda tinha piso avermelhado, como se guardasse o calor dos dias. O jardim era grande — pelo menos para o meu tamanho — e a grama verde fazia cócegas nos meus pés. Na frente, um sombreiro, aquela amendoeira que desenhava sombras largas no chão. À direita, o grande pé de goiabeira. E à esquerda, uma pequena plantação de grandes margaridas. Minha avó devia me amar muito, pois deixava eu desfolhar as pobrezinhas em “mau me quer, bem me quer”, sem nunca me repreender.
Eu era menina da cidade. Visitava nos fins de semana, nas férias, ou quando a maternidade pesava demais para minha mãe solo. Ali, eu era outra. Ou talvez, ali, eu era mais eu.
Chorei copiosamente ao terminar o conto. Não sei se foi pela história em si ou porque, de algum modo, eu já me sentia diferente. Como se houvesse algo em mim que não encaixava. Um bico torto, uma pena fora do lugar.
Hoje, aos cinquenta, ainda me sinto. Diferente.
A diferença não dói mais como antes. Ela pulsa. Ela canta. Às vezes, ela se recolhe. Mas nunca desaparece.
Tenho pensado muito na goiabeira. No modo como ela me sustentava sem exigir nada. No modo como eu me encaixava entre seus galhos, como se fosse feita para mim.
Talvez eu seja feita para lugares assim — que não pedem explicações.
Talvez o patinho feio não tenha chorado por ser rejeitado. Talvez ele tenha chorado ao se reconhecer.
E eu? Ainda choro, às vezes. Por gratidão, por saudade, por tudo que não sei nomear.
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Texto criado por Silvia Rocha para a seção Diário Coletivo, do Espaço Vida Integral, inspirada na memória de infância e na leitura de contos que revelam o sentir profundo da diferença.
Diário Coletivo é um espaço dedicado a dar voz a personagens que compartilham vivências, dores e descobertas. Neste local, cada relato se abre como uma janela para o mundo interno — real ou simbólico — de quem atravessa emoções humanas universais. Psicologia e narrativa se entrelaçam, revelando que, embora singulares, todas as existências são feitas da mesma matéria sensível: histórias que merecem ser escutadas. Os nomes, idades e localizações são fictícios, mas as experiências são essencialmente reais — ecos de vidas que tocam e transformam.





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