Colar de Espinhos e Beija-flor
- Silvia Rocha

- 10 de out. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 29 de jan.
Isabela Corazón, 33 anos — Ilha da Dor Criativa

Acordei com o cheiro da tinta ainda preso às narinas. O quarto estava quieto, mas dentro de mim havia um zumbido — como se um beija-flor tivesse se perdido entre as costelas. O espelho me olhava com a mesma expressão de ontem: um misto de desafio e cansaço. Vesti a blusa de algodão que ainda guardava vestígios de pigmento, e caminhei até o cavalete. Lá estava ela. Eu. Ou o que sobrou de mim.
O colar de espinhos me apertava o pescoço, mesmo fora da tela. Pintei cada ponta como quem costura a própria pele. O macaco me observa com olhos de quem sabe demais, o gato preto parece rir da minha tentativa de parecer inteira. Será que dor tem cor? Talvez seja verde, como as folhas que insisto em pintar atrás de mim. Talvez seja o silêncio entre as pinceladas, aquele que ninguém escuta, mas que grita.
Hoje o corpo pesa. A coluna reclama, a perna dorme, o coração acorda. Tomás passou por aqui ontem, deixou um cheiro de mural e ausência. Eu não disse nada. Só pintei. Porque às vezes, falar é um luxo que a dor não permite. E pintar é a única forma de gritar sem assustar ninguém. “Pés, para que os quero, se tenho asas para voar?” — repito em pensamento, como Frida Kahlo, que me ensina a resistir com beleza.
A cada traço, me reconstruo. Não como antes, mas como agora. A mulher que sangra e floresce. A mulher que ama e se despede. A mulher que não espera mais por milagres, mas que ainda acredita em cores. O beija-flor está morto, sim. Mas ainda paira sobre mim, como lembrança de tudo que já foi leve.
Talvez eu seja feita de espinhos. Mas também sou feita de voo.
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Texto criado por Silvia Rocha para a seção Diário Coletivo, do Espaço Vida Integral, inspirada na obra “Autorretrato com Colar de Espinhos e Beija-flor” (1940) de Frida Kahlo.
Diário Coletivo reúne relatos que nascem da percepção da autora sobre o que ela vê e sente. Cada história funciona como uma fresta para mundos internos — reais ou simbólicos — onde personagens atravessam emoções humanas comuns. Psicologia e narrativa se encontram para mostrar que, apesar das diferenças, todas as vidas partilham a mesma matéria sensível: experiências que merecem ser ouvidas. Nomes, idades e locais são inteiramente fictícios.





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