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Entre o Labirinto da Mente e o Abraço da Ilha

Atualizado: 29 de jan.

Cauê, 22 anos — Ilha da Confusão

Cauê observa o mar enquanto o céu se despede do dia. Um instante de paz entre os delírios.
Cauê observa o mar enquanto o céu se despede do dia. Um instante de paz entre os delírios.

A brisa da manhã traz o cheiro de maresia e bolo de fubá. É estranho como certas lembranças chegam assim, sem aviso, como fantasmas gentis. O cheiro me leva a uma cozinha que talvez tenha existido, talvez não. Um riso infantil ecoa, mas não sei se é meu. A areia sob meus pés parece me reconhecer. Piso nela como quem retorna a um lugar que nunca deixou.

Quase sempre estou fora do ar. Às vezes por causa da bebida, outras por alguma substância difícil de nomear. Me dizem que foi uma experiência com drogas na infância que embaralhou meu cérebro. Pode ser. O que sei é que a confusão mora em mim. E eu moro nela.

Vira e mexe, me aproximo de alguém como quem não quer nada. Um pedido sussurrado: “Tem uma bebida?” E sigo. Como um vulto.

Escolhi me chamar Cauê. Rima com “auê”. Faz sentido.

Na Ilha dos Sonhos, por onde oras vagueio, sou acolhido. Mesmo quando incomodo, mesmo quando não faço sentido. Os olhares não me julgam. Me oferecem comida, um sorriso, um gesto de cuidado. Dizem que sou de boa família, que estou sempre limpo e bem vestido. Mas não sei. Também dizem que devo ter sofrido um trauma grande. Talvez.

Meus pés conhecem caminhos que minha mente esqueceu. As pedras da praça central, frias sob meus chineles gastos. Ou meus pés descalços. A madeira dos gazebos, áspera como algumas memórias. A areia da praia, macia como o abraço de uma mãe.

Vago. Mas não sem rumo. Há algo que me guia. Um cheiro, uma cor, uma sensação. Às vezes vejo luzes dançando no ar. Ouço vozes que se misturam ao vento. São reais? Não sei.

O mar é meu confidente. Suas ondas acompanham meus pensamentos: vão e voltam, como eu.

O cansaço me derruba onde estiver. Na grama úmida, sob uma árvore antiga, num banco esquecido, com a pintura desgastada pelo tempo. E a Ilha me acolhe. Sempre.

As palavras me traem. Ficam presas no labirinto da minha mente. Mas sigo tentando. Viver é um esforço. Uma busca por sentido.

O sol se despede, tingindo o céu de laranja e violeta. Sento na areia. As ondas beijam a praia. Por um instante, tudo silencia. A névoa interna se dissipa.

Quem sou eu? Talvez apenas isso: um corpo que vaga, uma mente que delira, um ser que busca.

Na Ilha da Confusão, onde tudo é possível, talvez isso seja o suficiente.

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Texto criado por Silvia Rocha para a seção Diário Coletivo, do Espaço Vida Integral, inspirada em alguém que ela observou.

Diário Coletivo reúne relatos que nascem da percepção da autora sobre o que ela vê e sente. Cada história funciona como uma fresta para mundos internos — reais ou simbólicos — onde personagens atravessam emoções humanas comuns. Psicologia e narrativa se encontram para mostrar que, apesar das diferenças, todas as vidas partilham a mesma matéria sensível: experiências que merecem ser ouvidas. Nomes, idades e locais são inteiramente fictícios.

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