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A Sombra que Habita em Mim

Atualizado: 10 de out. de 2025

Aruê, 68 anos — Ilha da Luta Silenciosa


Lucio repousa à beira-mar, mãos sobre sua carteira de trabalho antiga — como quem segura a própria história.
Lucio repousa à beira-mar, mãos sobre sua carteira de trabalho — como quem segura a própria história. O sol poente toca seu rosto com ternura, enquanto a Ilha o escuta em silêncio.

O cheiro do mar, salgado e persistente, se mistura ao doce da pitanga madura. É o que me ancora. Na Ilha dos Sonhos, esse aroma é o único fio que ainda me liga ao mundo. Às vezes, o vento traz também o cheiro de café fresco, e Lucio se lembra da cozinha da infância, da mãe cantando baixinho enquanto mexia a colher de pau.

Sou Aruê. Vivo dentro de Lucio. Ou talvez seja ele quem vive em mim. Difícil saber onde termina um e começa o outro. Fui chegando devagar, como quem se esconde atrás de um gesto. Primeiro, um gole. Depois, um abrigo. Quando a esposa dele partiu — jovem demais, vibrante demais — eu encontrei espaço. Fiz morada no vazio. Me espalhei como sombra: discreta, persistente, difícil de expulsar. Lucio não me convidou, mas também não me expulsou.

Ele tem mãos macias agora. Antes eram firmes, calejadas, mãos de quem construiu coisas, sustentou família, apertou parafusos e segurou crianças. Hoje, parecem de criança. Um contraste cruel com a vida que ele levou. No bolso, ele guarda uma carteira de trabalho antiga, como quem segura um amuleto. “Trabalhei a vida toda”, ele diz. E eu escuto.

A fala dele, quando escapa de mim, é doce, clara, inteligente. Lucio sempre foi bom com palavras. Sabia explicar o mundo com frases simples e olhar direto. Mas quase sempre sou eu quem fala. Embriagado, confuso, arrastando Lucio para dentro da névoa.

A mãe dele, com seus 92 anos, é a última muralha. Pequena, frágil, mas firme como uma rocha. Quando ela se for, talvez Lucio se perca de vez. Eu sei disso. E ele também. Às vezes, ele se senta ao lado dela e segura sua mão com cuidado, como quem segura o último fio de lucidez.

Há um mês, eu o derrubei. Foi um tropeço meu, um descontrole. Ele caiu feio. O rosto ficou marcado, os olhos apagados. Os amigos vieram. Gente boa. Gente que quer Lucio de volta. Eles me olham com tristeza. Querem que eu vá embora. Mas eu sou parte dele.

Lucio não é só meu hospedeiro. Ele é meu abrigo, meu espelho. Eu sou o que sobrou quando tudo desmoronou.

E então veio Clara. Uma moça leve, dessas que parecem flutuar. Ela falou com Lucio como se ele fosse inteiro. E eu, por um instante, me afastei. Ele olhou para ela com ternura. E disse, com minha voz: “Eu gosto de você.”

Foi um momento raro. Um beijo na face, um gesto silencioso. Clara o abraçou. E eu, ou ele, ou nós dois, desaparecemos por um segundo.

Depois disso, talvez Lucio passe a caminhar mais devagar. Como se cada passo fosse uma escolha, uma tentativa de se manter presente. Pode ser que, em certos dias, ele me deixe esperando no banco da praça. Eu fico ali, quieto, enquanto ele se aproxima de alguém, troca palavras simples, fala do tempo, do mar, do cheiro de pitanga.

Talvez ele se sente à beira-mar e, por alguns minutos, esqueça que estou aqui. O vento bagunça seus cabelos, o sol aquece suas mãos, e ele respira fundo. Respira como quem quer voltar a ser inteiro.

Pode ser que, aos poucos, Lucio aprenda a me deixar em casa. Que saia sozinho, sem mim, sem o peso que carrego. Que descubra que pode existir sem a névoa, sem o tropeço, sem o silêncio que imponho.

Talvez ele ainda me leve junto, claro. Mas com menos frequência. Com menos entrega.

E eu, que sou feito de ausência e excesso, talvez comece a perder força. Talvez me dissolva aos poucos, como sal na água.

Talvez.

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Texto criado por Silvia Rocha para a seção Diário Coletivo, do Espaço Vida Integral, inspirada em um homem que conheceu.

Diário Coletivo é um espaço dedicado a dar voz a personagens que compartilham vivências, dores e descobertas. Neste local, cada relato se abre como uma janela para o mundo interno — real ou simbólico — de quem atravessa emoções humanas universais. Psicologia e narrativa se entrelaçam, revelando que, embora singulares, todas as existências são feitas da mesma matéria sensível: histórias que merecem ser escutadas. Os nomes, idades e localizações são fictícios, mas as experiências são essencialmente reais — ecos de vidas que tocam e transformam.

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