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A Menina e o Ratinho

Nina, 7 anos — Ilha da Falta  


Menina sentada em uma cama de hospital.
Nina continua procurando janelas que lhe mostrem o céu. E quando as encontra, rapidamente trata de abri-las.

Nina lembra primeiro do cheiro. Sempre do cheiro. Aquele odor de hospital que se entranhou nela como uma segunda pele. Mistura de álcool, remédio adocicado, lençol áspero e um frio que não vinha só das paredes descascadas. Vinha de dentro.   Um frio que parecia morar no peito, como se tivesse sido plantado ali muito antes da febre.

A enfermaria abrigava umas dez crianças. Elas chegavam, recebiam visitas, ganhavam colo, melhoravam — e partiam. Só ela permanecia. Só ela parecia esquecida naquele canto suspenso do mundo.

Tinha seis, talvez sete anos, e o mundo era grande demais para o seu corpo miúdo, para os pulmões que insistiam em não abrir. Diziam que era pneumonia, mas Nina pressentia — mesmo sem entender — que havia algo mais fundo, mais antigo. Uma tristeza sem nome, dessas que se instalam antes mesmo de alguém nascer para elas.

A janela alta era seu horizonte. Ela não alcançava, mas imaginava o céu por trás do vidro acinzentado. Será que estava azul? Será que chovia? Às vezes fechava os olhos e inventava pássaros, só para não se sentir tão presa. O peito ardia, queimava, apertava. E ela tremia, sem saber se era febre ou medo. Talvez os dois. Talvez nenhum. Talvez fosse só o corpo tentando dizer algo que ninguém escutava.

As enfermeiras cochichavam: A menina chora baixinho. A mãe quase não vem.   Nina ouvia tudo, mesmo quando fingia dormir. A mãe dizia que precisava trabalhar. Ela acreditava. Ou tentava. Do pai, não sabia nada. Nenhum parente apareceu, nem mesmo a avó querida. Era como se tivesse sido deixada ali por engano — e o mundo tivesse esquecido de corrigir o erro.

Mas havia o Topo Gigio.

O ratinho de papel, de capa colorida, de olhos grandes que pareciam compreendê-la. Uma coleção de livrinhos guardada numa sacolinha de plástico como se fossem pedras preciosas. E eram. Nina lia, relia, abraçava. Passava o dedo nas páginas como quem acaricia um amigo. Ele era seu companheiro de quarto, seu guardião silencioso. Quando a dor apertava, ela sussurrava: Não me deixa sozinha, tá?   E ele nunca deixava.

Havia também alguém por quem Nina esperava: a enfermeira do sorriso doce — e que sempre trazia remédio amargo. Ela chegava devagar, ajeitava o lençol, perguntava baixinho se a noite tinha sido boa. Quando não era o plantão dela, o dia ficava mais comprido, mais duro, mais vazio. Nina sentia falta daquela presença que parecia enxergá-la de verdade.

Às vezes imaginava que o Topo Gigio ganhava vida. Que descia da página, caminhava até seu travesseiro e fazia cócegas para espantar o choro. Outras vezes sonhava que ele a levava embora num barquinho pequeno, atravessando um rio de luz. Um rio que a tirava daquele hospital e a conduzia a uma ilha onde ninguém faltava. Onde o amor não tinha buracos.

No oitavo ou nono dia, disseram que ela precisava se exercitar. Permitiram que andasse pelos corredores. Nina saiu devagar, como quem pisa num sonho. E então descobriu: o hospital tinha um jardim. Um jardim de verdade, com sol, vento e passarinhos que pareciam sorrir para ela. Ficou encantada. Encantada como quem encontra uma porta secreta para o paraíso.

Repetidas vezes os enfermeiros precisavam procurá-la: Menina, volta para a cama.   Mas ela queria ver o sol. Queria ouvir os pássaros. Queria sentir que a vida existia além do cheiro de remédio.

A doença demorava a ceder. Talvez fosse o pulmão. Talvez fosse o silêncio. Talvez fosse a ausência, que pesava mais que a febre. Nina se perguntava se seu corpo sabia que estava sozinho. Se ele também sentia saudade de algo que nunca teve.

Uma noite, quando a dor ficou mais forte, ela apertou um dos livrinhos com tanta força que amassou a capa. Pediu ao ratinho que se calasse. Experimentou a raiva. Mas ele não se calou. Falou de coragem, de pequenos heróis, de crianças que atravessam tempestades. Disse que ela sairia dali. Que cresceria. Que um dia entenderia.

Hoje, adulta, Nina ainda carrega aquele quarto dentro de si. Uma porta que às vezes se abre quando o mundo pesa demais. Mas também carrega o jardim. O sol. A enfermeira de sorriso doce. E o ratinho — a força miúda que a sustentou quando ninguém apareceu.

Talvez tenha aprendido ali que a gente sobrevive agarrada ao que encontra. Às vezes é um abraço. Às vezes é um livro. Às vezes é um ratinho de papel que ensina a respirar quando o ar falta.

E, no fundo, foi ele quem lhe ensinou a não desistir. A acreditar que, mesmo na Ilha da Falta, existe sempre um fio de ternura. Um fio que, se puxado com cuidado, leva de volta para casa — mesmo que essa casa ainda esteja sendo construída.

Ironicamente, hoje Nina não sente cheiro. Mas continua procurando janelas que lhe mostrem o céu. E também o mar. E quando as encontra, abre-as alegremente.

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Texto criado por Silvia Rocha para a seção Diário Coletivo, do Espaço Vida Integral, inspirada em suas memórias de infância.

Diário Coletivo reúne relatos que nascem da percepção da autora sobre o que ela vê e sente. Cada história funciona como uma fresta para mundos internos — reais ou simbólicos — onde personagens atravessam emoções humanas comuns. Psicologia e narrativa se encontram para mostrar que, apesar das diferenças, todas as vidas partilham a mesma matéria sensível: experiências que merecem ser ouvidas. Nomes, idades e locais são inteiramente fictícios.

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