Não Gosto Mais de Tucanos
Helena, 50 anos — Ilha da Força

O chá de alecrim esfria na xícara de cerâmica macia enquanto o tempo, lá fora, parece dobrar-se sobre si mesmo em camadas de verde úmido e sombras que começam a esticar-se como braços cansados no fim da tarde. Daqui, desta mesa de trabalho onde os meus pensamentos deságuam e se perdem, o Araçá impõe sua presença monumental, recortando o céu cinzento e pesado que se fez na ilha.
Os papagaios-moleiros e as maritacas passam em revoadas ruidosas, rumo aos seus sonos. Mas, o que me prende os olhos e aperta o peito não é o voo largo dos que já conquistaram o mundo; é a contração dolorosa do espaço onde a vida frágil tenta, contra todas as probabilidades, perseverar.
Ali, bem diante da minha janela, naquele emaranhado precário de gravetos secos, musgo e saliva, mais uma mãe, esta uma passarinha, choca o seu futuro invisível, tateando a frágil ilusão de que o esforço próprio basta para sustentar o amanhã dos seus filhotes, na engrenagem implacável deste mundo.
Ele ronda. Tem vindo no derradeiro fôlego da tarde, quando as grandes estruturas começam a despencar como sentença sobre os desamparados.
Um clarão de beleza radiante e assustadora corta a penumbra densa da folhagem — o tucano bico verde. Não há como negar a sua majestade hipnotizante: a plumagem negra como veludo, o peitoral de um amarelo vivo que parece emitir luz própria e aquele bico monumental, uma escultura perfeita pintada em tons de laranja e vermelho, leve e imponente como uma joia coroada pela floresta. Não fosse pela crueldade mecânica da ordem vigente, onde o topo da cadeia devora o que a base constrói com calos, eu ainda o amaria.
Ele chega sem aviso, com suas garras impiedosas cravadas na casca áspera do galho, pesando como uma autoridade incontestável sobre a ramagem que balança em colapso. A mãe passarinha não apenas encolhe a alma: ela grita. Um gancho agudo, rasgado, dilacerante, que ecoa pela copa das árvores e faz outros passarinhos tomarem a dor para si, gritando também em um coro desesperado pelo dossel de uma mata que abandonou os seus.
O som desse pavor coletivo me atinge em cheio. O nervosismo assume o meu corpo num sobressalto; sinto o peito arfar acelerado, o ar trancar na garganta e minhas mãos começam a tremer descontroladamente sobre a mesa. É uma empatia visceral, quase insuportável, que me faz sentir cada batida descompassada daquele pequeno coração esmagado pelo peso sistêmico como se fosse o meu próprio ardor.
Por que a beleza mais deslumbrante e polida das altas esferas precisa vir acompanhada dessa lâmina afiada que consome, com elegância institucional, o que foi gestado com tanto zelo e amor? O drama de ver um ninho ameaçado é a mais antiga das tragédias transfigurada em plumas soberanas e gabinetes intocáveis.
O tucano inclina a cabeça com uma calma quase cínica, exibe o bico magnificamente cruel, foca o olho predatório e se prepara para o bote definitivo da exclusão. Eles sempre começam pelo bico.
Sem pensar, movida por um desespero febril, bato com força na madeira da janela. O som seco atravessa a atmosfera densa, mas ele se faz de surdo, ignorando o meu gesto, cego pela certeza absoluta de sua soberania hereditária. A aflição me arrasta para fora da cadeira. Saio em desespero, empurro a porta e grito também, somando a minha voz ao alarde dos indefesos, fazendo-me escudo humano entre a fera colorida e o berço frágil. Senti a dor dos pequenos nos meus próprios ossos e pele; eu sempre sinto, porque carregar a angústia do vulnerável é a condenação de quem não consegue fechar os olhos para a assimetria brutal do poder.
Ele veio ontem também, com a mesma elegância aterradora, e a cena se repetiu no entardecer. Mas, diante do meu grito e da minha intromissão furiosa, pela segunda vez o sistema hesitou, cedeu à pressão da indignação coletiva, soltou o galho do Araçá e abriu as asas escuras em retirada rumo à noite insondável de suas ambições.
No instante seguinte, o silêncio trêmulo devolve o fôlego à mata. As mãos ainda tremem; contudo, sinto o ar voltar aos poucos aos pulmões. Olho novamente para o ninho. A pequena mãe emerge dos fiapos, o peito arfando ao lado dos seus, ainda assim inteira, abrigada no milagre efêmero da sobrevida.
Na imobilidade daquela existência que o colosso quase tragou, cruza-se o fio invisível de uma resistência ancestral entre a minha janela e os galhos do Araçá. Hoje os fracos tiveram vez e os pequenos dormirão em paz!
E, enquanto fecho a janela para o sereno da noite, contemplo a lembrança daquele bico magnífico e concluo, sem remorsos: não gosto mais de tucanos!
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Texto criado por Silvia Rocha para a seção Personalidades, do Espaço Vida Integral, inspirado em uma situação que ela viveu.
Personalidades é um espaço dedicado a dar voz a pessoas reais — ou evocadas do coração — que compartilham vivências, feridas e descobertas. Cada história se abre como uma janela para o universo interno, concreto ou simbólico, de quem atravessa emoções profundamente humanas. Psicologia e narrativa se entrelaçam, revelando que, embora singulares, todas as trajetórias brotam da mesma matéria sensível: lembranças que pedem acolhimento. Nomes, idades e lugares são ficcionais, mas as experiências reverberam verdades — fragmentos de vida que tocam, movem e transformam.






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