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O Mal-Estar na Civilização Digital: Nomofobia e FOMO

Atualizado: 25 de set. de 2025

Em um mundo cada vez mais conectado, a busca por produtividade e validação social gera um paradoxo: o avanço tecnológico contrasta com a regressão do bem-estar psíquico. Este artigo analisa a nomofobia (medo de ficar sem celular) e a síndrome de FOMO (Fear of Missing Out), explorando como as exigências da era digital exacerbam o mal-estar, gerando um custo psíquico significativo. Buscaremos correlacionar esses fenômenos com psicotraumas, transtornos psíquicos, emocionais e doenças físicas, oferecendo reflexões para uma vida mais equilibrada. A era digital, com sua conectividade constante, impõe novos desafios à saúde mental, e é crucial entender seus impactos no bem-estar individual e coletivo.


Em um mundo cada vez mais conectado, a busca por produtividade e validação social gera um paradoxo: o avanço tecnológico contrasta com a regressão do bem-estar psíquico.
Em um mundo cada vez mais conectado, a busca por produtividade e validação social gera um paradoxo: o avanço tecnológico contrasta com a regressão do bem-estar psíquico.

Nomofobia: A Ansiedade da Desconexão Digital

A nomofobia, do inglês “no mobile phobia”, é o medo irracional de ficar sem o celular. Essa fobia moderna reflete a crescente dependência tecnológica. No Brasil, mais de 60% dos brasileiros relatam ansiedade sem o celular [1], e o país é o 4º no ranking mundial de viciados em smartphones [2].

 

A exigência de estar sempre conectado e atualizado nas redes sociais contribui para a nomofobia. A pressão por respostas instantâneas e a verificação constante de notificações criam um ciclo de ansiedade. O celular torna-se um objeto transicional, uma extensão do self, proporcionando falsa segurança. Sua ausência desencadeia angústia, revelando a fragilidade psíquica diante da superestimulação digital e da necessidade de validação externa.


Raízes Psicológicas e Consequências da Nomofobia

A nomofobia, embora recente, dialoga com a busca por segurança e a evitação da solidão. O smartphone oferece conforto e acalma a ansiedade. Sua ausência não é apenas a perda de comunicação, mas de um suporte emocional, gerando angústia profunda.

 

As consequências da nomofobia são vastas. Socialmente, a dependência pode levar ao isolamento, pois interações virtuais carecem de profundidade. No trabalho, notificações constantes prejudicam a concentração e produtividade. Na saúde mental, associa-se a ansiedade, depressão, irritabilidade e distúrbios do sono. É crucial uma relação consciente com a tecnologia, usando-a como ferramenta, não muleta emocional.


FOMO: O Medo de Ficar de Fora na Era da Conectividade

O FOMO (Fear of Missing Out) é a apreensão de perder experiências gratificantes que outros vivenciam, especialmente nas redes sociais. Essa ansiedade de exclusão é alimentada pela exposição à vida “perfeita” alheia, gerando inadequação e insatisfação. Embora sem estatísticas específicas no Brasil, estudos indicam associação direta com ansiedade e estresse [3], especialmente quando há dificuldade em acompanhar exigências sociais.


A Tirania da Comparação Social e Implicações do FOMO

O FOMO está intrinsecamente ligado à cultura da comparação, exacerbada pelas redes sociais. A exposição a recortes idealizados da vida alheia cria a ilusão de que todos vivem experiências incríveis, enquanto o indivíduo se sente estagnado. Essa comparação constante e enviesada gera sofrimento.

 

As implicações do FOMO para a saúde mental são significativas. A sensação de inadequação e a ansiedade de perder algo podem levar a depressão, baixa autoestima, solidão e insatisfação crônica. O FOMO pode induzir a comportamentos impulsivos, como endividamento para eventos sociais ou exposição a riscos por experiências instagramáveis”. Para combatê-lo, é preciso cultivar autocompaixão, gratidão e consciência de que a vida real tem altos e baixos. É fundamental um olhar crítico sobre as redes sociais, lembrando que elas são recortes, não a realidade.


O FOMO (Fear of Missing Out) é a apreensão de perder experiências gratificantes que outros vivenciam, especialmente nas redes sociais. Essa ansiedade de exclusão é alimentada pela exposição à vida “perfeita” alheia, gerando inadequação e insatisfação.
O FOMO (Fear of Missing Out) é a apreensão de perder experiências gratificantes que outros vivenciam, especialmente nas redes sociais. Essa ansiedade de exclusão é alimentada pela exposição à vida “perfeita” alheia, gerando inadequação e insatisfação.

O Custo Psíquico das Exigências Sociais e Suas Conexões

O mal-estar na civilização, nomofobia e FOMO são faces do custo psíquico imposto pelas exigências sociais. O estresse contínuo e a pressão por desempenho esgotam recursos psicológicos e biológicos. Psicotraumas predispõem a depressão, ansiedade generalizada, pânico e TEPT. A nomofobia pode desencadear crises de ansiedade com sintomas físicos [4]. O FOMO associa-se a solidão, baixa autoestima e depressão [5].


Perspectivas Psicanalíticas, Analíticas e Sistêmicas

Psicanálise: Freud, em "O Mal-Estar na Civilização" [6], apontou a tensão entre pulsões individuais e exigências culturais. A civilização, ao reprimir, gera um mal-estar constitutivo. Nomofobia e FOMO são novas manifestações. A busca por conexão e validação via smartphone pode ser uma tentativa de preencher um vazio existencial, fugindo da angústia humana e da solidão imposta. O celular, como objeto transicional, oferece ilusão de completude, mascarando conflitos inconscientes. A dependência tecnológica é sintoma de um mal-estar mais profundo, evitando o confronto com limitações e perdas. A ansiedade da desconexão remete à angústia de aniquilamento, perda do objeto e fragmentação do ego.

 

Psicologia Analítica: Carl Jung, com arquétipos e inconsciente coletivo [7], oferece outra lente. A busca por pertencimento e reconhecimento social, exacerbada pelo FOMO, manifesta o arquétipo da Persona. A comparação com a vida “perfeita” nas redes pode levar à identificação excessiva com a Persona, negligenciando o Self. O medo de ficar de fora é o medo de não estar alinhado às expectativas sociais, gerando alienação da individualidade. A nomofobia pode ser a sombra, o lado reprimido da psique, projetado na dependência tecnológica. A desconexão confronta o vazio interior, exigindo integração do Self. A superação envolve individuação, busca pela totalidade e integração dos opostos, relacionando-se autenticamente consigo e com o mundo, além das máscaras sociais.

 

Terapia Sistêmica Familiar: Nomofobia e FOMO podem ser compreendidos sistemicamente [8], vendo sintomas individuais como expressões de disfunções relacionais. A dependência tecnológica pode ser sintoma de padrões de comunicação disfuncionais, busca por conexão não encontrada em relações diretas, ou evitação de conflitos familiares. O FOMO pode ser alimentado por expectativas familiares de sucesso ou cultura de comparação. A ausência de limites no uso da tecnologia, falta de diálogo sobre redes sociais e dificuldade de conexões autênticas contribuem. A terapia sistêmica busca identificar padrões, promover comunicação e limites saudáveis, fortalecendo laços familiares para um desenvolvimento autônomo e equilibrado, sem que a tecnologia supra necessidades relacionais.


Correlações com Psicotraumas, Transtornos Psíquicos, Emocionais e Doenças Físicas

O estresse crônico e o sofrimento emocional da nomofobia e do FOMO impactam diretamente a saúde física. Corpo e mente estão conectados; o desequilíbrio em um afeta o outro. Doenças psicossomáticas, como gastrite, úlcera, dores de cabeça, problemas de pele e cardiovasculares, são manifestações físicas do sofrimento emocional. A compreensão dessas correlações é fundamental para uma abordagem integral da saúde. A ativação contínua do sistema nervoso simpático, pela ansiedade e estresse, eleva cortisol e adrenalina, comprometendo sistemas imunológico, cardiovascular e digestório a longo prazo. A privação do sono, comum, agrava transtornos psíquicos e doenças físicas.


O mal-estar na civilização, nomofobia e FOMO são faces do custo psíquico imposto pelas exigências sociais. O estresse contínuo e a pressão por desempenho esgotam recursos psicológicos e biológicos.
O mal-estar na civilização, nomofobia e FOMO são faces do custo psíquico imposto pelas exigências sociais. O estresse contínuo e a pressão por desempenho esgotam recursos psicológicos e biológicos.

A Conexão que Liberta

Querido leitor, concluímos nossa jornada pelo mal-estar na civilização digital. Vimos como as exigências sociais, amplificadas pela conectividade, geram um custo psíquico elevado, manifestando-se em nomofobia e FOMO. Mais que apontar desafios, convidamos à reflexão sobre sua relação com o mundo e consigo mesmo.

 

Lembre-se: felicidade é um caminho diário, mesmo nas adversidades. Não precisamos estar sempre “ligados” ou “disponíveis” para sermos valiosos. Permita-se desconectar, respirar, e reencontrar-se no silêncio e na simplicidade. A verdadeira conexão, que nutre a alma, não está nas redes sociais, mas nos laços genuínos com pessoas e natureza. Não se compare, não se culpe, acolha suas imperfeições. A vida é aprendizado contínuo, e cada passo é uma vitória.

 

Para quem deseja refletir sobre vínculos afetivos, solidão e os limites entre conexão real e virtual, recomendo assistir ao filme Ela (Her, 2013). E para ampliar ainda mais esse olhar, convido você a ler o artigo "Análise Psicológica do Filme 'Ela': Solidão, Amor e Tecnologia na Pós-Modernidade", disponível aqui no blog Espaço Vida Integral. Uma leitura sensível que mergulha nas camadas emocionais e simbólicas dessa narrativa tão atual.


Um abraço, Silvia Rocha


Silvia Rocha é psicóloga (CRP 06/182727), terapeuta integrativa e hipnoterapeuta master
Silvia Rocha é psicóloga (CRP 06/182727), terapeuta integrativa e hipnoterapeuta master


Silvia Rocha é psicóloga (CRP 06/182727), terapeuta integrativa e hipnoterapeuta master, com graduação em Psicologia em 2005. Fundadora do Espaço Vida Integral, atua com foco no bem-estar emocional, crescimento pessoal e fortalecimento de relacionamentos, oferecendo terapias individuais, de casais, sistêmicas e familiares.

 






Possui formações em Psicoterapia Breve, Psicanálise, Doenças Psicossomáticas, Coaching, Psicologia Transpessoal, Terapias Quânticas/Holísticas, Constelação Sistêmica Familiar e Apometria Clínica Avançada. Com mais de 30 anos de experiência na área corporativa e MBA em Gestão Empresarial pela FGV/RJ, Silvia também realiza Coaching Pessoal.

 

Contato:

Instagram e Facebook: @silviarocha.terapeuta

WhatsApp: (12) 98182-2495


Referências Bibliográficas

[1] FORBES. Nomofobia: o medo de ficar sem celular atinge mais de 60% dos brasileiros. Disponível em: https://forbes.com.br/forbes-tech/2024/09/mais-de-60-dos-brasileiros-estao-com-nomofobia-entenda-o-medo-de-ficar-sem-celular/. Acesso em: 24 ago. 2025. 

[2] TUDOCELULAR. Nomofobia: Brasil é o 4º país do mundo com mais viciados em celulares. Disponível em: https://www.tudocelular.com/seguranca/noticias/n215270/nomofobia-brasil-4-mais-viciados-celulares.html. Acesso em: 24 ago. 2025. 

[3] SCIELO. Prevalência e fatores preditores do ‘Fear of Missing Out’ entre acadêmicos de Medicina durante a pandemia da Covid-19. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbem/a/4YqxnfFF6rnSrzF6nSpFJfF/. Acesso em: 24 ago. 2025. 

[4] CNN BRASIL. Nomofobia: conheça medo irracional de ficar sem celular. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/nomofobia-conheca-medo-irracional-de-ficar-sem-celular/. Acesso em: 24 ago. 2025. 

[5] BETTERHELP. Social Media And The Fear Of Missing Out. Disponível em: https://www.betterhelp.com/advice/current-events/fear-of-missing-out-social-media-effects-and-solutions/. Acesso em: 24 ago. 2025. 

[6] FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. 

[7] JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1964. 

[8] MINUCHIN, Salvador. Famílias e terapia familiar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1982. 

[9] SPIKE Jonze. Ela (Her). Estados Unidos: Warner Bros. Pictures, 2013. Filme.

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