Filme "A Origem": Desvendando os Labirintos dos Sonhos
- Silvia Rocha

- 30 de jul. de 2025
- 9 min de leitura
Atualizado: 19 de out. de 2025
Por: Silvia Rocha
O cineasta Christopher Nolan, em "A Origem" (2010), explora a psicologia humana, apresentando o mundo dos sonhos e o inconsciente de forma instigante. A trama de Dom Cobb, um "extrator" de segredos do subconsciente, ecoa conceitos psicológicos reais, desafiando a linha entre realidade e ilusão. A habilidade de Nolan em tecer narrativas complexas que espelham a psique humana torna seu trabalho relevante para a psicologia.
Este artigo busca desvendar os labirintos dos sonhos, utilizando a perspicácia de Nolan como ponto de partida. Exploraremos as contribuições de Sigmund Freud e Carl Jung, a relevância da Terapia Sistêmica Familiar, e as correlações dos sonhos com aspectos biológicos, psicológicos e sociológicos. Abordaremos também a relação entre sonhos, psicotraumas e transtornos psíquicos, oferecendo uma compreensão aprofundada do fenômeno. O percurso será enriquecido com dados estatísticos atualizados, exemplos e estudos de caso, culminando em uma reflexão empática sobre a importância dos sonhos para o autoconhecimento e a cura.

A Perspicácia de Nolan e a Visão Freudiana dos Sonhos
Em "A Origem", Nolan explora um universo onírico que ecoa as investigações de Sigmund Freud sobre o inconsciente. Freud, o pai da psicanálise, via os sonhos como a "via régia para o inconsciente" [1], manifestando desejos reprimidos de forma disfarçada. Esse processo, chamado trabalho do sonho, converte o conteúdo latente (desejos inconscientes) no conteúdo manifesto (o que lembramos do sonho) [2].
Mecanismos como a condensação (fusão de pensamentos em uma imagem) e o deslocamento (transferência de intensidade emocional) são espelhados na forma como os personagens de Nolan constroem e navegam pelos sonhos. A ambiguidade entre realidade e sonho no filme ressoa com a visão freudiana de que a vida onírica é tão significativa quanto a vigília. A frase de Dom Cobb, "uma ideia... é quase impossível erradicá-la", pode ser interpretada como uma metáfora para a força dos complexos inconscientes.
![Freud, o pai da psicanálise, via os sonhos como a "via régia para o inconsciente" [1], manifestando desejos reprimidos de forma disfarçada.](https://static.wixstatic.com/media/69d738_f10ceb9cf1cd4b12bea8f54ab19ec3b0~mv2.jpg/v1/fill/w_980,h_980,al_c,q_85,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/69d738_f10ceb9cf1cd4b12bea8f54ab19ec3b0~mv2.jpg)
Além de Freud: A Psicologia Analítica de Carl Jung e o Inconsciente Coletivo
Enquanto Freud desvendava os desejos reprimidos no inconsciente pessoal, Carl Gustav Jung, seu contemporâneo e, por um tempo, discípulo, expandiu a compreensão dos sonhos para além da experiência individual. Jung introduziu o conceito de inconsciente coletivo, uma camada mais profunda e universal da psique, compartilhada por toda a humanidade. Este inconsciente coletivo é o repositório de arquétipos, imagens e padrões primordiais que se manifestam em mitos, religiões, contos de fadas e, crucialmente, nos sonhos [3]. Para Jung, esses arquétipos são estruturas inatas que moldam a experiência humana, conferindo um significado universal a certos símbolos oníricos e fornecendo um elo entre a psique individual e a sabedoria ancestral da humanidade.
Para Jung, os sonhos não são apenas a realização de desejos reprimidos, mas mensagens do Self, o centro da totalidade psíquica, que busca a integração e o equilíbrio da personalidade. Ele propôs a função compensatória dos sonhos: se a consciência de um indivíduo está excessivamente focada em um aspecto da vida, o sonho pode trazer à tona o oposto para restaurar o equilíbrio psíquico. Por exemplo, uma pessoa excessivamente racional pode sonhar com situações caóticas ou emocionais, compensando a unilateralidade da consciência [4]. Essa função compensatória é vital para o desenvolvimento saudável da psique, pois evita que o indivíduo se torne unilateral e desequilibrado, promovendo uma visão mais holística de si mesmo e do mundo.
A diferença fundamental entre Freud e Jung reside na abrangência do inconsciente. Enquanto Freud se concentrava na história de vida individual e nos impulsos sexuais e agressivos, Jung via os sonhos como portais para uma sabedoria ancestral e universal, que transcende a experiência pessoal. Os arquétipos, como o Herói, a Sombra, a Anima/Animus e o Velho Sábio, surgem nos sonhos como guias no processo de individuação, o caminho de desenvolvimento psicológico em direção à totalidade e à integração de todos os aspectos da personalidade, conscientes e inconscientes [5]. O processo de individuação é um convite à jornada interior, onde o indivíduo se torna quem realmente é, integrando todas as suas partes e alcançando um estado de plenitude e autenticidade.
Em "A Origem", embora a narrativa seja predominantemente freudiana em sua exploração de desejos e traumas pessoais, elementos junguianos podem ser percebidos na universalidade de certas imagens oníricas e na forma como o subconsciente dos personagens projeta figuras que representam seus conflitos internos. A figura de Mal, a esposa de Cobb, que o persegue em seus sonhos, pode ser vista como uma manifestação arquetípica da Sombra ou da Anima, representando aspectos não integrados de sua própria psique que clamam por reconhecimento e integração. A complexidade dos níveis de sonho no filme também pode ser metaforicamente associada às camadas do inconsciente junguiano, desde o pessoal até o coletivo, sugerindo que a mente humana é um labirinto de profundidades inexploradas.
![Os arquétipos, como o Herói, a Sombra, a Anima/Animus e o Velho Sábio, surgem nos sonhos como guias no processo de individuação, o caminho de desenvolvimento psicológico em direção à totalidade e à integração de todos os aspectos da personalidade, conscientes e inconscientes [5].](https://static.wixstatic.com/media/69d738_f0fff617d9cd42c7804f1aa30c11d843~mv2.jpg/v1/fill/w_980,h_980,al_c,q_85,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/69d738_f0fff617d9cd42c7804f1aa30c11d843~mv2.jpg)
Sonhos na Contemporaneidade: Aspectos Biológicos, Psicológicos e Sociológicos
Os sonhos possuem uma base biológica sólida, ocorrendo principalmente durante o estágio REM do sono, com intensa atividade cerebral [6]. Contudo, a experiência onírica é influenciada por fatores psicológicos e sociológicos, como estresse crônico e a crescente conectividade digital, que afetam diretamente a qualidade do sono e a saúde mental da população.
Dados estatísticos recentes no Brasil são alarmantes e reforçam a urgência de se discutir o tema. Pesquisas indicam que mais de 70% dos brasileiros sofrem com algum tipo de distúrbio do sono, como insônia, apneia obstrutiva do sono e síndrome das pernas inquietas [7]. Essa prevalência impacta diretamente a qualidade de vida de aproximadamente 72% da população, manifestando-se em sintomas como cansaço persistente, dificuldade para iniciar ou manter o sono e agitação [8].
A saúde mental, por sua vez, apresenta um cenário igualmente desafiador. Em 2024, o Brasil registrou um número recorde de afastamentos do trabalho devido a transtornos mentais, totalizando mais de 470 mil casos, o maior índice desde 2014 [9]. O aumento nos afastamentos por problemas de saúde mental foi expressivo, atingindo 134% [10]. Globalmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 1 bilhão de pessoas vivem com algum tipo de transtorno de saúde mental [11]. Esses números refletem um aumento significativo nos níveis de ansiedade, estresse e depressão na sociedade contemporânea.
Essa correlação entre distúrbios do sono, estresse e transtornos mentais é crucial para a compreensão do bem-estar psíquico. Os sonhos podem atuar como um termômetro do estado mental de um indivíduo, refletindo as pressões e desafios da vida moderna. Por exemplo, pesadelos recorrentes podem ser um sinal de ansiedade subjacente ou estresse não gerenciado, enquanto a dificuldade em recordar sonhos ou a ausência aparente deles pode indicar uma sobrecarga mental ou um mecanismo de defesa do psiquismo para evitar o processamento de conteúdos perturbadores. A análise dos sonhos, nesse contexto, pode oferecer insights valiosos para a intervenção e o tratamento de condições de saúde mental, auxiliando na identificação precoce de problemas e na busca por estratégias de enfrentamento eficazes.

Sonhos, Trauma e Cura: A Perspectiva da Terapia Sistêmica Familiar
A relação entre sonhos e psicotraumas é particularmente evidente em condições como o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), onde pesadelos recorrentes e memórias intrusivas são sintomas comuns e debilitantes [12]. Esses sonhos perturbadores, muitas vezes vívidos e angustiantes, representam uma tentativa do psiquismo de processar e integrar a experiência traumática. No entanto, sem o devido suporte, podem se tornar um ciclo de revitimização, perpetuando o sofrimento e dificultando a recuperação do indivíduo.
A Terapia Sistêmica Familiar oferece uma perspectiva valiosa para a compreensão e tratamento desses fenômenos. Diferente das abordagens individualistas, a terapia sistêmica compreende o indivíduo como parte integrante de um sistema familiar interconectado. Assim, problemas individuais, incluindo a manifestação de traumas em sonhos, são vistos como reflexos de dinâmicas, padrões relacionais e lealdades invisíveis que podem ser transgeracionais [13]. A família, nesse contexto, é um organismo vivo onde as experiências de um membro afetam e são afetadas pelos demais.
Embora a Terapia Sistêmica não se dedique à interpretação simbólica dos sonhos da mesma forma que a psicanálise ou a psicologia analítica, ela pode utilizar os sonhos como uma janela para as dinâmicas familiares inconscientes. Um sonho individual, por exemplo, pode expressar tensões latentes, conflitos não resolvidos ou emaranhamentos sistêmicos que o indivíduo, de forma inconsciente, carrega em nome do sistema familiar [14].
A Constelação Familiar, uma abordagem com raízes sistêmicas e junguianas, postula a existência de um "campo de conhecimento" ou "campo morfogenético" que contém informações sobre o sistema familiar ao longo das gerações. Os sonhos, nesse sentido, podem acessar esse campo, revelando emaranhamentos sistêmicos, exclusões ou desequilíbrios que precisam ser reconhecidos e reorganizados para que a cura possa ocorrer [15]. Por exemplo, um sonho recorrente sobre um segredo familiar pode indicar a necessidade de trazer à luz questões não resolvidas que afetam o bem-estar do indivíduo e do sistema.
As correlações entre sonhos, psicotraumas, transtornos psíquicos e doenças físicas são inegáveis e complexas. A privação de sono e a ocorrência de pesadelos, frequentemente associados a traumas e estresse crônico, podem agravar quadros de ansiedade, depressão e outras condições de saúde mental. O estresse crônico, por sua vez, manifestado em sonhos perturbadores, tem sido correlacionado com diversas doenças físicas, evidenciando a profunda conexão entre mente e corpo. Os sonhos, portanto, não são apenas manifestações do inconsciente, mas também indicadores importantes do bem-estar físico e psíquico. A abordagem sistêmica, ao considerar o indivíduo em seu contexto familiar e social, auxilia na desconstrução e ressignificação desses padrões, promovendo uma cura mais abrangente e duradoura.

A Jornada Contínua do Autoconhecimento Através dos Sonhos
Querido leitor, querida leitora, ao adentrarmos os labirintos dos sonhos — inspirados pela genialidade de Christopher Nolan e pelas ricas contribuições da psicologia — percebemos que a mente humana é um território vasto e enigmático, repleto de mensagens ocultas e potenciais de cura. Longe de serem simples devaneios noturnos, os sonhos funcionam como portais para o inconsciente, onde sabedoria ancestral, desejos profundos e feridas não cicatrizadas emergem em busca de reconhecimento e integração.
É instigante observar como arte, ciência e espiritualidade se entrelaçam na tentativa de compreender esse fenômeno. Assim como Dom Cobb, em A Origem, nos provoca a questionar o que é real e a explorar as camadas do subconsciente, a jornada onírica nos convida ao mergulho interior — à decifração dos símbolos que nossa própria psique nos oferece. Seja pela lente freudiana dos desejos reprimidos, pela abordagem junguiana dos arquétipos universais ou pela perspectiva sistêmica das dinâmicas familiares, os sonhos revelam pistas preciosas para nossa transformação pessoal.
Que este artigo seja um convite para você acolher seus próprios sonhos com mais atenção e curiosidade. Eles são aliados poderosos, mensageiros da sua verdade mais íntima. Permita-se sonhar, sentir, curar. A cada sonho compreendido, um novo fragmento de si se revela — e com cada revelação, a existência ganha mais profundidade, plenitude e sentido. Lembre-se: sua trajetória é singular, e cada passo, cada sonho, cada despertar é uma chance de reconexão com sua essência.
Para expandir ainda mais essa reflexão sobre os vínculos entre sono e experiência psíquica, recomendo a leitura do artigo “Sono e Trauma: Interfaces entre Corpo, Alma e Sociedade”. Ele oferece uma abordagem sensível e profunda sobre como vivências traumáticas reverberam no universo do sono e da subjetividade.
Um abraço, Silvia Rocha

Silvia Rocha é psicóloga (CRP 06/182727), terapeuta integrativa e hipnoterapeuta master, com graduação em Psicologia em 2005. Fundadora do Espaço Vida Integral, atua com foco no bem-estar emocional, crescimento pessoal e fortalecimento de relacionamentos, oferecendo terapias individuais, de casal, sistêmicas e familiares.
Possui cursos e formações em Psicoterapia Breve e Focal, Psicotrauma, Psicologia de Emergências e Desastres, Doenças Psicossomáticas, Psicanálise, Coaching, Psicologia Transpessoal, Terapias Quânticas/Holísticas, Constelação Sistêmica Familiar e Apometria Clínica Avançada. Com mais de 30 anos de experiência na área corporativa, MBA em Gestão Empresarial pela FGV/RJ e Pós-Graduação em Negócios pela FAAP/SP, Silvia também realiza Coaching Pessoal.
Contato: Instagram e Facebook: @silviarocha.terapeuta
WhatsApp: (12) 98182-2495
Referências Bibliográficas
[1] FREUD, S. A Interpretação dos Sonhos. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. IV e V. Rio de Janeiro: Imago, 1972.
[2] LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
[3] JUNG, C. G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Obras Completas, Vol. 9/1. Petrópolis: Vozes, 2011.
[4] JUNG, C. G. A Prática da Psicoterapia. Obras Completas, Vol. 16. Petrópolis: Vozes, 2011.
[5] JUNG, C. G. Memórias, Sonhos, Reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975.
[6] HOBSON, J. A. The Dreaming Brain. New York: Basic Books, 1988.
[7] FIOCRUZ. 72% dos brasileiros sofrem de doenças relacionadas ao sono. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2023/marco/voce-ja-teve-insonia-saiba-que-72-dos-brasileiros-sofrem-com-alteracoes-no-sono. Acesso em: 11 set. 2025.
[8] AGÊNCIA BRASIL. Mau humor e falta de foco podem indicar distúrbios do sono, diz médico. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2025-03/mau-humor-e-falta-de-foco-podem-indicar-disturbios-do-sono-diz-medico. Acesso em: 11 set. 2025.
[9] G1. Crise de saúde mental: Brasil tem maior número de afastamentos por ansiedade e depressão em 10 anos. Disponível em: https://g1.globo.com/trabalho-e-carreira/noticia/2025/03/10/crise-de-saude-mental-brasil-tem-maior-numero-de-afastamentos-por-ansiedade-e-depressao-em-10-anos.ghtml. Acesso em: 11 set. 2025.
[10] ONU BRASIL. Brasil: Afastamentos por problemas de saúde mental aumentam 134%. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/292926-brasil-afastamentos-por-problemas-de-sa%C3%BAde-mental-aumentam-134. Acesso em: 11 set. 2025.
[11] OPAS/OMS. Mais de um bilhão de pessoas vivem com condições de saúde mental. Disponível em: https://www.paho.org/pt/noticias/2-9-2025-mais-um-bilhao-pessoas-vivem-com-condicoes-saude-mental-servicos-precisam. Acesso em: 11 set. 2025.
[12] AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5). 5th ed. Arlington, VA: American Psychiatric Publishing, 2013.
[13] BOWEN, M. Family Therapy in Clinical Practice. New York: Jason Aronson, 1978.
[14] MINUCHIN, S. Families and Family Therapy. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1974.
[15] Hellinger, B. Ordens do Amor: Um Guia para o Trabalho com Constelações Familiares. São Paulo: Cultrix, 2007.



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