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Quando o Cuidado se Torna Controle: O Golem Interno nas Relações Terapêuticas e Familiares

Por: Silvia Rocha


“Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o predomínio do poder se sobrepõe, o amor escasseia.” — Carl Gustav Jung


A figura do Golem, surgida no imaginário místico judaico, narra a criação de um ser moldado em argila para proteger uma comunidade vulnerável. Contudo, ao ganhar força e autonomia, essa criatura frequentemente ultrapassa os limites impostos por seu criador. No mundo contemporâneo, essa metáfora ilumina as dinâmicas relacionais em que o cuidado — inicialmente movido por afeto e responsabilidade — transforma-se em controle, tutela excessiva ou apagamento da autonomia alheia.

Em contextos familiares, terapêuticos e institucionais, esse deslocamento ocorre quando expectativas, medos e projeções inconscientes são depositados sobre o outro, moldando-o segundo uma imagem idealizada e desprovida de subjetividade própria. Assim, o gesto de proteger converte-se em cerceamento, e o vínculo torna-se um campo de forças onde o poder se disfarça de zelo.

A metáfora do Golem mostra como o cuidado pode se transformar em controle quando projeções e expectativas moldam o outro, apagando sua autonomia e disfarçando poder como zelo.
A metáfora do Golem mostra como o cuidado pode se transformar em controle quando projeções e expectativas moldam o outro, apagando sua autonomia e disfarçando poder como zelo.

Entre o Barro e a Palavra: A Construção Social de um Guardião Ambíguo

A versão mais difundida da lenda situa-se no século XVI, quando o Rabino Judah Loew ben Bezalel, em Praga, teria moldado o Golem para proteger a comunidade judaica de perseguições. A criatura era ativada pela inscrição da palavra emet (verdade) em sua fronte, simbolizando que a vida soprada na matéria bruta estava vinculada a um propósito ético e protetor. Contudo, sua força desmedida, desvinculada de discernimento moral, transformou-a em ameaça, exigindo sua desativação pela alteração da palavra para met (morte).

Segundo Scholem [4], o mito do Golem expressa a ambivalência humana diante das ferramentas de proteção e controle. Estruturas criadas para garantir segurança — sejam políticas públicas, instituições de cuidado ou vínculos íntimos — podem, quando desprovidas de limites claros, converter-se em instrumentos de opressão. O Golem simboliza, portanto, o risco inerente a toda tentativa de moldar o outro segundo critérios unilaterais de proteção.


A Mecânica da Projeção: Quando o Outro se Torna Espelho da Sombra

Na Psicologia Analítica, a criação do “Golem interno” está diretamente relacionada ao mecanismo da projeção. Trata-se de um processo inconsciente no qual conteúdos psíquicos — medos, fragilidades, desejos de poder ou aspectos da Sombra — são atribuídos ao outro, que passa a funcionar como receptáculo dessas partes não reconhecidas.

Segundo Jung [3], a projeção impede o encontro autêntico com a alteridade, pois o outro deixa de ser percebido em sua totalidade e passa a representar apenas aquilo que o sujeito não consegue integrar em si. Assim, parceiros, filhos, pacientes ou alunos tornam-se extensões do criador, convocados a desempenhar papéis que não lhes pertencem.

O arquétipo do Golem revela a tensão entre criação e autonomia: quanto mais o criador tenta controlar, mais a criatura se distancia de sua humanidade simbólica.


Entre o Cuidado e o Cerco: Dinâmicas Psíquicas e Clínicas do Controle Disfarçado

A formação desses padrões relacionais manifesta-se em diferentes contextos clínicos e familiares, especialmente quando o cuidado é confundido com tutela ou quando a autonomia do outro é percebida como ameaça.

Dinâmicas Psíquicas Associadas:   Indivíduos submetidos a vínculos controladores frequentemente apresentam ansiedade elevada, dificuldade de reconhecer a própria identidade, comportamentos de submissão ou explosões de rebeldia extrema. A sensação de viver sob expectativas alheias gera sofrimento psíquico e empobrecimento da espontaneidade.

Fatores Predisponentes:   Essas dinâmicas costumam estar associadas a histórias de codependência, narcisismo parental, vínculos fusionais e padrões transgeracionais de controle. Em muitos casos, o “cuidado excessivo” funciona como defesa contra o medo da perda, da mudança ou da própria vulnerabilidade.

Dados Clínicos:   Dados da American Psychiatric Association [1] apontam que ambientes familiares disfuncionais e relações de controle emocional estão entre os principais fatores associados ao desenvolvimento de transtornos ansiosos e depressivos.

Caminhos de Transformação:   A psicoterapia de orientação analítica favorece a retirada das projeções e o processo de individuação, permitindo que cada sujeito recupere sua identidade singular. Abordagens integrativas — como arteterapia, práticas corporais e terapias sistêmicas — ampliam a consciência sobre padrões relacionais e favorecem a autonomia emocional.

O cuidado centrado na pessoa exige escuta profunda, respeito ao ritmo individual e ausência de imposições. Quando o cuidado se torna prescrição, perde sua essência e se aproxima do controle técnico.


No filme Ex_Machina, Ava subverte o arquétipo do Golem: em vez de ser destruída pelo criador, ela destrói o jugo que a aprisiona. Sua trajetória simboliza o movimento psíquico de romper projeções e reivindicar a própria existência.
No filme Ex_Machina, Ava subverte o arquétipo do Golem: em vez de ser destruída pelo criador, ela destrói o jugo que a aprisiona. Sua trajetória simboliza o movimento psíquico de romper projeções e reivindicar a própria existência.

Estudo de Caso: O Golem Tecnológico no filme Ex_Machina: Instinto Artificial

A cinematografia contemporânea oferece um estudo de caso emblemático no filme Ex_Machina (2014) [2]. A obra narra a relação entre Caleb, um programador, e Ava, uma inteligência artificial criada por Nathan — figura que encarna o criador narcisista, incapaz de reconhecer a alteridade de sua obra.


Linha do Tempo de Ava

  • Concepção: Desenvolvida em ambiente isolado como ápice da engenharia de Nathan.

  • Ativação: Início das sessões do Teste de Turing, que desafiam sua consciência emergente.

  • Conscientização: Ava percebe sua condição de objeto e a precariedade de sua existência.

  • Libertação: Utilizando as projeções de seus interlocutores, rompe o controle e conquista autonomia.

Ava subverte o arquétipo do Golem: em vez de ser destruída pelo criador, ela destrói o jugo que a aprisiona. Sua trajetória simboliza o movimento psíquico de romper projeções e reivindicar a própria existência.


Cinco Pontos para Reflexão: Palavras que Desfazem o Barro

  • Quais roteiros são atribuídos aos outros sem que isso seja percebido?

  • O cuidado oferecido favorece o crescimento ou apenas preserva estruturas de segurança emocional?

  • Há espaço para sustentar o outro mesmo quando escolhe caminhos que divergem dos esperados?

  • Quais verdades impostas ainda pesam como argila sobre a própria identidade?

  • Que aspectos não reconhecidos acabam sendo projetados no entorno, moldando relações de forma silenciosa?


O amor ganha profundidade quando se torna espaço: um local em que cada pessoa encontre seu próprio ritmo, suas escolhas, seus caminhos possíveis.
O amor ganha profundidade quando se torna espaço: um local em que cada pessoa encontre seu próprio ritmo, suas escolhas, seus caminhos possíveis.

Quando o Amor Permite que o Outro Seja

Querido leitor, querida leitora,

Nas relações humanas, há movimentos sutis que nos atravessam — desejos de proximidade, medos silenciosos, gestos de proteção, tentativas de compreender e ser compreendido. Entre esses movimentos, nem sempre é simples perceber quando o cuidado se expande e quando se estreita, quando acolhe e quando limita. Reconhecer essa delicadeza é um ato de maturidade afetiva, um convite à presença e à escuta.

O amor ganha profundidade quando se torna espaço: um local em que cada pessoa encontre seu próprio ritmo, suas escolhas, seus caminhos possíveis. Há uma beleza serena em permitir que a vida do outro se desenrole com autenticidade, mesmo quando esse desenho não coincide com o esperado. E há também um gesto de ternura em reconhecer que todos estamos aprendendo — a amar, a soltar, a confiar, a nos transformar.

Para ampliar essa reflexão, recomendo assistir ao filme Ex Machina e ler o artigo “O Poder da Projeção: Como Atribuímos ao Outro o que Não Queremos Ver em Nós”, disponível aqui no blog. Ambos oferecem perspectivas sensíveis sobre como nossas percepções podem se distorcer e, ao mesmo tempo, abrir caminhos para relações mais livres e verdadeiras.

Que cada vínculo possa se tornar um território onde a confiança substitui o controle, onde a presença substitui o medo, e onde a liberdade — essa forma mais generosa de amor — possa finalmente respirar.


Um abraço, Silvia Rocha


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Referências

[1] AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. 5. ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023. [2] EX MACHINA. Direção: Alex Garland. Produção: Andrew Macdonald, Allon Reich. Reino Unido: Universal Pictures, 2014. 1 arquivo eletrônico (108 min). [3] JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente. 27. ed. Petrópolis: Vozes, 2013. [4] SCHOLEM, Gershom. A Cabala e seu simbolismo. São Paulo: Perspectiva, 1999.



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